14 de abril de 2008

catarse

"numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, gregório samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos.

que me aconteceu ? - pensou. não era nenhum sonho. o quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.

mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!

gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado - ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? - cogitou. mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara."

(kafka)

2 escuta!:

Eu.com.baunilha disse...

Como assim, pra ver o Dave?

Ô, "A Metamorfose" é bom, mas já leu "Um Artista da Fome"?

X descartado ! disse...

Um filme, talvez não fosse tão bom quanto as descrições Kafkafianas... elas despertam em nosso imaginário, imagens surrealmente angustiantes... impossíves de serem traduzidas em qualquer linguagem...

o cara é o gaudí da descrição